Análise da Narrativa com o MAXQDA

Utilizando a Análise da Narrativa na sua Pesquisa

As histórias moldam nossas vidas. Elas nos ajudam a entender quem somos, o que aconteceu e por que isso importante. Usamos histórias em entrevistas de emprego, nas redes sociais e em sessões de terapia. As histórias nos ajudam a dar sentido às experiências, nos conectar com os outros e nos orientar no mundo. Mas as histórias não são neutras. Elas são seletivas e influenciadas por normas culturais, contextos institucionais e dinâmicas de poder. Na pesquisa qualitativa, essas histórias do dia a dia se tornam dados.

A Análise da Narrativa oferece um quadro rigoroso para lidar com histórias como material empírico. Ela não reduz as narrativas a temas isolados ou fragmentos descontextualizados. Em vez disso, examina como as histórias são construídas e o que essas histórias significam para as pessoas que as contam. Também questiona como as narrativas refletem e moldam os mundos sociais em que circulam. Essa abordagem enfatiza tanto a estrutura quanto o contexto da narrativa. Ela pergunta não apenas o que foi dito, mas como, para quem e com que propósito. Esses elementos revelam como o significado, a identidade e o posicionamento social são produzidos e negociados através da narrativa.

Se você é um estudante de pós-graduação, pesquisador ou profissional, este guia apresenta as principais questões relacionadas a Análise da Narrativa: temática, estrutural e dialógica. Cada uma oferece uma perspectiva diferente para descobrir significado nos dados narrativos. Você vai encontrar explicações claras, orientações passo a passo e ferramentas práticas para trabalhar com entrevistas, estudos de caso e outras formas de narrativa.

O que é análise narrativa?

“A Análise da Narrativa é um grupo de métodos qualitativos focados em estudar histórias do jeito que os participantes da pesquisa as contam.”

Diferente de outras abordagens qualitativas que dividem os dados em fragmentos temáticos, a Análise da Narrativa trata as histórias como um todo significativo. Você examina não só o que as pessoas dizem, mas como elas dizem, por que estruturam suas histórias de determinadas maneiras e o que essas escolhas narrativas revelam sobre seus processos de criação de sentido, identidade e contextos sociais.

De forma mais ampla, a Análise da Narrativa se envolve com o que Jerome Bruner chamou de “construção narrativa da realidade”: as histórias não apenas refletem a experiência; elas ajudam a organizá-la e torná-la inteligível.

Na prática, isso significa que você pode olhar para as narrativas através de duas lentes complementares:

Experiência e interpretação: como as pessoas escolhem eventos e atribuem significado subjetivo a eles.

Meios narrativos: os recursos linguísticos e culturais (por exemplo, metáforas, roteiros, enredos familiares) usados para construir esse significado.

Nota Epistemológica

Tradições Diferentes, Suposições Diferentes

A Análise da Narrativa não é uma técnica única. É um conjunto de abordagens fundamentadas em diferentes pressupostos sobre o conhecimento e a realidade.

Fenomenológica: narrativas como vias de acesso à experiência vivida.

Construtivista: histórias como ferramentas discursivas moldadas pela linguagem, pela cultura e pelo poder.

Interacionista/dialógica: narrativas como performances coproduzidas na interação social.

Três abordagens fundamentais para a análise narrativa

Não existe uma receita única para a Análise da Narrativa. Em vez disso, suas perguntas e objetivos de pesquisa ajudarão você a determinar a abordagem analítica adequada.

As três tradições principais focam em diferentes aspectos da narrativa:

  1. Análise da Narrativa Temática
  2. Análise da Narrativa Estrutural
  3. Análise da Narrativa Dialógica e Performativa

1 – Análise da Narrativa Temática

No que se concentra: O conteúdo e o significado das histórias; sobre o que é a história.

A Análise da Narrativa Temática examina os temas, tópicos e questões que emergem nas histórias dos participantes. Busca-se identificar padrões no conteúdo que as pessoas relatam: que experiências elas descrevem? Que significados atribuem a essas experiências? Que elementos comuns conectam as narrativas de diferentes pessoas?

Quando usar Análise da Narrativa Temática?

  • Quando você deseja compreender experiências comuns a vários participantes.
  • Quando suas perguntas de pesquisa se concentram no conteúdo e no significado das experiências, e não na estrutura da narrativa.
  • Quando você trabalha com grandes conjuntos de dados e precisa identificar padrões em meio a muitas narrativas.

Exemplo de pergunta de pesquisa

“Como os sobreviventes de câncer compreendem suas experiências de recuperação?”

2 – Análise da Narrativa Estrutural

No que se concentra: A forma e a organização das histórias; como a história é contada.

O que é a Análise da Narrativa Estrutural?

A Análise da Narrativa Estrutural examina como as narrativas são construídas: suas estruturas de enredo, sequências temporais, pontos de virada e dispositivos narrativos. Você presta atenção a elementos como a história começa e termina, como os eventos são ordenados, o que é enfatizado ou minimizado, e como a tensão se desenvolve e se resolve. A própria estrutura revela o significado.

Quando usar Análise da Narrativa Estrutural?

  • Você se interessa pela narrativa como prática social e cultural
  • Você quer entender como a forma narrativa molda o significado
  • Você está comparando como diferentes grupos ou culturas estruturam experiências semelhantes
  • Você está examinando pontos de virada, transições ou transformações em histórias de vida

Exemplo de pergunta de pesquisa

“Como os professores estruturam narrativas de transições de carreira e o que essas estruturas revelam sobre a identidade profissional?”

3 – Análise da Narrativa Dialógica e Performativa

No que se concentra: no contexto interativo em que as histórias são contadas; quem conta a história, para quem, por que e com quais efeitos.

O que é a Análise da Narrativa Dialógica?

Abordagens dialógicas, como a Análise da Narrativa Dialógica de Arthur Frank (2010), concebem as narrativas como performances que ocorrem em contextos sociais específicos. Examina-se o próprio evento de contar a história: como o narrador se posiciona em relação ao seu público? De quais narrativas sociais e culturais ele se apropria ou às quais resiste? De que maneira a narração da história realiza ações sociais, tais como construir uma identidade, reivindicar legitimidade ou desafiar pressupostos?

Quando usar Análise da Narrativa Dialógica?

  • Você se interessa pela construção de identidade e posicionamento social
  • Você quer entender as dinâmicas de poder na narrativa
  • Seus dados envolvem interação (entrevistas, grupos focais, conversas que acontecem naturalmente)
  • Você está examinando como as narrativas circulam e influenciam as comunidades

Exemplo de pergunta de pesquisa

“Como os solicitantes de asilo se posicionam e apresentam suas experiências ao contar suas histórias a autoridades de imigração em comparação com grupos de apoio entre pares?”

Escolhendo sua abordagem de análise narrativa

Para ajudar a orientar suas escolhas, considere suas perguntas de pesquisa, a natureza dos seus dados e o entendimento que você quer alcançar.

  • Escolha a análise temática se estiver explorando temas comuns em um amplo conjunto de narrativas.
  • Opte pela análise estrutural quando estiver interessado em como as histórias são contadas, como sua sequência, pontos de virada e arcos narrativos.
  • Utilize a análise dialógica ou performativa ao examinar a narração de histórias como um ato social, atentando para o público, a identidade e o posicionamento cultural.

Você consegue combinar métodos da Análise da Narrativa?

Dica de especialista: A integração exige intencionalidade analítica.

Por que combinar abordagens da Análise da Narrativa?

Talvez seja útil começar com uma única lente analítica. No entanto, combinar abordagens de forma intencional — quando norteado por clareza teórica e metodológica — pode gerar interpretações mais ricas e matizadas. Os conceitos da Análise da Narrativa fundamentam-se em pressupostos epistemológicos distintos sobre a natureza e a função das histórias: os temas apontam para o sentido; a estrutura revela a lógica narrativa; a performatividade expõe o posicionamento social. Portanto, a integração não deve ser uma questão de conveniência ou preferência estética, mas sim de fundamentação analítica.

Como combiná-los de forma ponderada?

Por exemplo, você pode começar com uma Análise da Narrativa Temática para identificar experiências compartilhadas entre as entrevistas e, em seguida, realizar uma Análise da Narrativa Estrutural para explorar como essas experiências são organizadas temporal e afetivamente na forma narrativa. Por fim, uma perspectiva da Análise da Narrativa Dialógica pode ajudar a examinar como os narradores se posicionam e posicionam seus públicos nessas narrativas. Esse processo pode revelar dinâmicas de poder ou afirmações de identidade subjacentes ao próprio ato de narrar. Esse tipo de integração reflete uma orientação hermenêutica, que valoriza a profundidade interpretativa e a reflexividade em detrimento da pureza metodológica, mas deve ser conduzido com intencionalidade metodológica. Nem todos os pesquisadores da área de narrativas apoiam a combinação de métodos, especialmente quando as perspectivas analíticas se baseiam em pressupostos distintos sobre a natureza e a função das narrativas. Portanto, quando se opta pela integração, ela deve ser norteada por um raciocínio teórico claro.

O ponto é explicar como cada perspectiva avança os seus objetivos de interpretação e como a combinação delas traz clareza em vez de complexidade para a sua análise. A integração funciona melhor quando é guiada pelas suas perguntas de pesquisa e compromissos teóricos, e não pelo desejo de abordar todos os ângulos possíveis.

Uma estrutura de escuta de três níveis

Pense nisso como sintonizar uma história em três frequências inter-relacionadas, usando tipologias desenvolvidas por metodologistas narrativos como Catherine Riessman (2008):

  • O que está sendo dito (temático)
  • Como está sendo dito (estrutural)
  • Por que está sendo dito dessa maneira e para quem (dialógico/performativo)

Quando aplicado com consciência epistemológica, combinar abordagens pode revelar uma complexidade narrativa que qualquer método isolado poderia perder, especialmente quando seu objetivo é entender histórias tanto como textos quanto como práticas de construção de significado dentro de tempos, discursos e contextos sociais específicos.

Continuação…

References and Further Resources

Bruner, J. (1991). The narrative construction of reality. Critical Inquiry, 18(1), 1–21.

Clandinin, D. J., & Connelly, M. (2000). Narrative inquiry: Experience and story in qualitative research. Jossey-Bass.

Cortazzi, M., & Jin, L. (2012). Approaching narrative analysis with 19 questions. In S. Delamont (Ed.), Handbook of qualitative research in education (pp. 474–488). Edward Elgar Publishing Ltd.

Frank, A. W. (2010). Letting stories breathe: A socio-narratology. University of Chicago Press.

Franzosi, R. (1998). Narrative analysis—Or why (and how) sociologists should be interested in narrative. Annual Review of Sociology, 24(1), 517–554. https://doi.org/10.1146/annurev.soc.24.1.517

Georgakopoulou, A., & De Fina, A. (Eds.). (2019). Handbook of narrative analysis. Wiley Blackwell.

Josselson, R., & Hammack, P. L. (2021). Essentials of narrative analysis. American Psychological Association.

Labov, W. (1972). Language in the inner city: Studies in the Black English vernacular. University of Pennsylvania Press.

Rädiker, S., & Gizzi, M. C. (Eds.). (2024). The practice of qualitative data analysis: Research examples using MAXQDA, Volume 2. MAXQDA Press.

Riessman, C. K. (2008). Narrative methods for the human sciences. Sage.

Smith, B. (2016). Narrative analysis. In E. Lyons & A. Coyle (Eds.), Analysing qualitative data in psychology (2nd ed., pp. 202–221). SAGE.

Autor: Xan – VERBI Software

Translation: Eder J. Aves – PredictON

Texto original: https://www.maxqda.com/research-guides/narrative-analysis