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Estudo de Caso como Processo de Generalização e Construção de Teoria

Estudo de Caso

MAFFEZZOLLI, E. C.; BOEHS, C. G. Uma reflexão sobre o estudo de caso como método de pesquisa. Revista de FAE, v.11, n.1, p.95-110, 2008.

O propósito desta resenha sobre o artigo “Uma reflexão sobre o estudo de caso como método de pesquisa”, publicado em 2008, escrito por Eliane C. F. Maffezzolli e Carlos G. E. Boehs, é realizar uma discussão metodológica e epistemológica sobre o uso do estudo de caso nos procedimentos da pesquisa cientifica sob a ótica destes autores. Partindo da lógica de identificar o “como” e o “porque” dos fenômenos, o método de estudo de caso pode ser enquadrado como qualitativo. Os autores discutem esta lógico sob as perspectivas ontológicas e epistemológicas por meio de uma revisão da literatura não sistemática, em especial e em maior quantidade de vezes, citando Robert Yin, Robert Stake e John Creswell. O estudo de caso, sob a ótica de Creswell é definido no artigo como um sistema limitado (tempo e espaço) com um ou múltiplos casos (evento, atividade ou indivíduos) e coleta de dados advindas de múltiplas fontes de informação, buscando profundidade contextual.

No contexto de análise epistemológica, o argumento de que o conhecimento pode ser interpretado de forma lógica (fundamentalismo) perde força para o fato de que a realidade não pode ser observada na sua plenitude sem ter em conta a influência dos atores nos fenômenos sociais (não fundamentalista). Neste estudo, os autores referem-se a epistemologia como o modus operandi que define como será conhecida a realidade. A ontologia é definida como sendo as escolhas realizadas pelos pesquisadores diante da decisão de abordagem para a pesquisa. O texto segue a discussão epistemológica entre dicotomias na abordagem, com o positivismo direcionado por preceitos quantitativos e o interpretacionista por qualitativos. Sendo a abordagem qualitativa uma linha de pesquisa que fornece maior profundidade. É ponto comum entre os acadêmicos que o pesquisador precisa saber qual é o direcionamento da sua pesquisa. No método de estudo de caso, existe uma tendência clara de classificar a abordagem com interpretativista e não fundamentalista.

No processo de coleta do estudo de caso, as evidências podem ser por meio de entrevistas, observações, documentos e reportagens. Uma classificação deste método fica a critério de Robert Yin: exploratório, descritivo ou explanatório (ou explicativo). O pesquisador precisa definir qual unidade de análise pode ser relacionada com os casos, podendo ser uma ou mais organizações, projetos, eventos ou indivíduos. Outra classificação é em intrínseco, instrumental e coletivo feita por Robert Stake. No intrínseco o propósito é compreender um fenômeno em particular. No instrumental o foco é secundário, apoio para compreensão sobre algo. O coletivo visa analisar um fenômeno, população ou condição geral em conjunto. Robert Yin oferece quatro possibilidades apoiadas no número de casos, contexto e unidade de análise. Os casos podem ser únicos ou múltiplos, e holísticos ou incorporados.

Os autores do artigo Maffezzolli e Bohes refletem sobre critérios de qualidade, formação do protocolo de pesquisa, ferramentas de coleta de evidências e triangulação dos dados para alcançar o objetivo da revisão da literatura. Para analisar a qualidade, discutem as diversas referências em função de validade e confiabilidade. Antes, porém, se discute algumas observações para julgar o estudo de caso. Kathleen M. Eisenhardt é uma autora que possui grande reconhecimento na orientação de condução dos estudos de casos. Em linha com outros autores, defende que a verificação do estudo de caso se refere à triangulação dos dados, buscando a convergência das informações. A confiabilidade, por sua vez, está relacionada ao uso do protocolo para documentar os passos seguidos na pesquisa e a capacidade de repetição para gerar os mesmos resultados. O protocolo contém o instrumento, os procedimentos e as regras que os pesquisadores devem atender. A coleta de evidência pode ser feita com documentação, registros em arquivo, entrevista, observação direta ou participante e artefatos físicos. A convergência destas evidências deve ser busca por esclarecer o fato, alvo da analisar desejada.

Após analisar as questões que envolvem os procedimentos metodológicos para conduzir uma pesquisa com o uso do método de estudo de caso, o mais obvio é compreender como os resultados pode ser utilizado e discutido de forma que se obtenha conhecimento sobre o processo de generalização e / ou construção teórica. Ora, o grande problema é que tal processo é foco de imenso referencial bibliográfico com diversidade de posicionamentos. A construção de teoria e conhecimento tem relação com o processo de generalização, a generalização pode oferecer inferências sob uma ótica lógica, teórica ou analítica segundo alguns autores. Outros, sugerem a possibilidade de generalizações em função de pesquisas de levantamento. Por fim, existem perspectivas considerando a falta de necessidade de gerar generalizações, o importante é a facilidade de transferência dos resultados.

Robert Stalker é fonte de críticas no tocante ao processo de generalização e o argumento sobre a compreensão da generalização em função de falsas premissas. Se assim fosse, a generalização naturalística seria uma melhor opção, o indivíduo com sua experiência torna-se apto a realizar comparações explícitas entre situações analisadas e o conhecimento tácito internalizado.

Não obstante, o texto segue com a discussão sobre o processo de transferibilidade relacionado com a replicabilidade dos estudos. Alguns autores apontam para uma série de alternativas e propostas ao processo de generalização, considerando a população ou a exemplificação de alguns esforços, visando à explanação de relações a partir de comparações. Por outro lado, segundo os autores, falhas nestas alternativas são postas a luz quando são empregados valores tradicionais de ciência. Devido a diversidade, mencionada antes, atribui-se um certo grau de critico as alternativas propostas, tanto de um lado como do outro. Talvez careçam de um estágio com maior nível de excelência.

A possibilidade de criar uma teoria, ainda que seja substantiva, por meio de um estudo de caso é muito interessante para os pesquisadores. Somente o fato de pensar que a pesquisa pode atingir generalizações regulares sobre estrutura, comportamento e interação dos fenômenos já é um bom motivo para adotar o estudo de caso como método. Existem explicações por meio da aplicação de uma teoria ou da produção de uma teoria e teste de suas hipóteses. Antes de desenvolver uma teoria é relevante definir a questão de pesquisa, permitindo selecionar o caso com maior propriedade e ir a campo conhecendo o que coletar.

A aplicação do estudo de caso gerou discussões metodológicas importantes, demonstrando falta de consenso em diversos aspectos. Em especial, sobre a contribuição do processo de generalização para o desenvolvimento de teorias e as inferências estatísticas ou lógicas. A estatística leva o pesquisador a realizar uma relação estatística entre as duas variáveis e na lógica busca-se explicar o fenômeno a partir de uma teoria dada. O fato de o estudo de caso dar ênfase na relação teórica, resulta que o processo de inferência lógica é o único que pode ser realizado.

Portanto, não é de hoje que existem desacordos entre os autores sobre os fundamentos epistemológicos e ontológicas que circundam o desenvolvimento e orientação para o uso do método de estudo de caso. Seja em função da adoção de uma abordagem qualitativa ou quantitativa, fundamentalista ou não fundamentalista, positivista ou interpretacionista, sempre haverá críticas e a buscar por melhoria no uso do estudo de caso como um processo de generalização e/ou construção de uma teoria.

Autor da resenha: Prof. Dr. Eder Junior Alves

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